chegámos ao dia mais temido do ano.
mais temido que o natal e restantes celebrações de calendário, mais odiado que o dia do pai, mais deprimente que o final do ano, é mesmo o dia em que me (nos) deixaste.
há quatro anos. vou dizer outra vez, só para ver se a realidade se infiltra na pele, me rasga mais os tendões e começa a circular fluidamente na minha corrente sanguínea: há quatro anos morreste (me).
por esta hora, eu ainda não sabia. há quatro anos a esta hora, estavas prestes a deixar este mundo, a minha (nossa) vida.
pelas doze horas e cinco minutos deste mesmo dia o teu coração desistiu, demoveu-se da sua vontade de continuar a pulsar, definhou como tu e o teu corpo, aquele frágil invólucro que te continha e que me foi tão dífícil largar. pedi para ver na morgue as marcas da reanimação, só para ter a certeza que eles tinha tentado e que tu é que te tinhas permitido morrer.
isto é tudo um grande contrasenso eu sei mas entende que me foi difícil aceitar que és finito, que não tens uma resiliência inacreditável, que (me) morreste, que me deixaste cedo demais.
quatro anos depois, o que queres que te diga?
ainda é difícil e tu sabes. ainda me consigo ver a entrar na unidade, todos os dias, durante quatro meses. a imagem da esperança, do sofrimento e da saudade, tudo comprimido no peito e solto nas lágrimas que escorriam para cima do rio das flores que insistia em levar comigo para me manter ocupada na sala de espera. permitia-me não olhar para as outras pessoas, cumpriu o objectivo.
quatro anos volvidos, tu sabes, eu achei que nunca iria conseguir sobreviver à ausência, suportar a dor. mas o ser humano é capaz de se adaptar e ao dia de hoje posso dizer-te que incorporei a tua ausência na minha vida e sou agora capaz de lidar com as dolorosas recordações da presença que já tiveste, do que já foste. com relativa serenidade, até.
se há quatro anos me tivessem dito que me iria desfazer, sem remorsos nem apego, de tudo quanto já foi teu, não acreditaria. pensei que seria mais fácil para mim manter tudo como era, fingir que nada tinha acontecido e deixar todos os teus pertences no seu devido lugar. não que os procurasse com frequência. mas era talvez reconfortante saber que lá estavam.
ao dia de hoje nada mais resta teu. fizeste-nos saber (ou não? sou um bocadinho céptica nestas coisas pelo que me fico pela semi-dúvida) que tinhas de seguir este novo rumo e que esta minha atitude não te estava a ajudar. que não gostavas que fosse para a tua campa chorar. e que não querias mais flores roxas. ou vermelhas. certíssimo. aguenta-te com margaridas brancas e amarelas porque já me bastavam os teus caprichos quando me acompanhavas em vida.
já não choro na campa. mudo as flores e lavo o mármore. componho o arranjo. sigo rapidamente para outro destino para não me dar oportunidade de sentir a tristeza deste acto.
não eras perfeito, tal como eu não sou. tivemos as nossas desavenças (poucas) apenas porque eu sabia que era a única pessoa que te chamava à razão e te devolvia o sentido das coisas. um dos dias que fui mais feliz foi aquela tarde de agosto em que fomos os dois apanhar amoras no campo e as devorámos rapidamente à sombra enquanto me contavas as tuas histórias de miúdo (pirata, era a tua expressão). as horas pareciam não passar e aquela leve brisa de verão imprimia em mim a sensação de que tinha tempo de sobra, para o que quisesse fazer.
ficou esse prazer para a vida, o de apanhar fruta das árvores e sentir a liberdade dos dias de verão, em que somos nós a gerir o tempo e não o contrário. ficou o gosto pelo peixe fresco, acabado de pescar, com sabor e cheiro a maresia (que demorei tanto tempo a saber apreciar). fica o gosto pela doçaria, que sempre fiz mais para te agradar do que propriamente para meu guilty pleasure.
ficou o abraço que me deste nos momentos em que foi preciso. ficou o toque do polegar mais pesado de sempre, no meu rosto pequenino, a limpar as lágrimas teimosas que até então apareciam por motivos tão pouco nobres e tão pouco tristes, por vezes.
ficaram os sucessos que comemorámos juntos e que fazias questão de divulgar, sublinhando o teu orgulho.
fico eu, pai, o teu melhor feito.
ficam as recordações que irei passar de ti aos meus filhos e que espero façam de ti um herói também aos olhos deles.
quatro anos depois, o pior dia da minha vida e da tua volta a acontecer.
mas já não é o mesmo dia.
em quatro anos consegui empurrar a dor para aquele sítio em que só dói novamente até aos limites do insuportável se abrir a caixinha onde a decidimos reservar e que guardamos no local mais fundo e difícil de atingir da memória.
é outro dia, mais um dia em que não estás e continuo a aprender a viver sem ti.